Ricardo
Gebrim*
O
O Governo Lula completará dois anos e vai se concretizando uma
certeza: tudo indica que manterá a mesma política econômica
do Governo FHC, consolidando um modelo de economia adotado por Collor
que desmontou o Estado brasileiro. Uma política macroeconômica
que prioriza altas taxas de juros, a manutenção de um
absurdo superávit primário e o pagamento de serviços
da dívida pública.
Frustrando os eleitores que votaram contra o neoliberalismo, o Governo
Lula concentra-se na continuidade da política recessiva e submissa
ao FMI, sem esboçar qualquer sinal de que pretende superar esse
modelo perverso. Ao contrário, ao demitir Carlos Lessa do BNDES
deixa claro que não pretende mudar.
Como explica recente manifesto, firmado por mais de 300 economistas
de todo o país, a política econômica do governo
Lula coloca a sociedade brasileira em uma armadilha de tal forma que
qualquer ameaça ou chantagem, externa ou interna, é enfrentada
com medidas monetárias e fiscais restritivas que agravam a crise
social.
Além de travar a economia, o superávit primário
–agora elevado para 4,5% do PIB – e os juros básicos
de agiotagem – elevados novamente para, agora, 17,25% a.a. –
são uma verdadeira máquina de transferência de renda
de pobres para ricos, na medida em que implicam a tributação
indireta dos pobres, e o aumento da tributação direta
da classe média, para o pagamento dos juros da dívida
pública aos ricos. Os banqueiros e os especuladores que lucram
com o pagamento dos juros da dívida, amealharam nada menos do
que 145 bilhões de reais só em 2003.
A manutenção desta política econômica é
a principal causa de agravamento da situação social com
a manutenção de patamares insustentáveis de desemprego,
que já atinge um quarto da população ativa nas
principais regiões metropolitanas. Todos os indicadores sociais
revelam a natureza perversa dessa política, que manteve a crise,
empobreceu a população e o país e aumentou a exclusão
social.
A idéia de que não existe alternativa viável de
política econômica fora dos dogmas da ortodoxia –
uma mentira que de tanto ser repetida acabou ganhando estatuto de verdade
absoluta – apenas explicita o esforço sistemático
de convencer a opinião pública de que o neoliberalismo
é irreversível.
Em torno da Coordenação dos Movimentos Sociais, os principais
movimentos populares e entidades sindicais de todo o país, se
articulam para lutar pela imediata mudança da política
econômica. Exigem que Lula cumpra seus compromissos de campanha.
Nosso Sindicato se integra nesta luta. Sem uma mudança radical
nos rumos da política econômica, não há perspectivas
de dias melhores. Dentro do modelo econômico brasileiro é
simplesmente impossível compatibilizar o combate à pobreza
e às desigualdades sociais com o compromisso de pagar a qualquer
custo as dívidas externa e interna.