O
deputado federal Ivan Valente (PT/SP) é um especialista sobre
a dependência externa do Brasil. Autor de diversos documentos
e artigos sobre o assunto, o parlamentar é favorável a
uma ampla auditoria na dívida brasileira, “com a suspensão
do seu pagamento neste período”. Leia a entrevista exclusiva
concedida ao Voz do Advogado.
Você participou recentemente de um seminário internacional
que defende a realização de auditoria para a dívida
externa. Como foi?
A auditoria cumpre papel pedagógico para a população.
Queremos mobilizar a sociedade para que ela conheça e enfrente
o problema. Também queremos que o Congresso Nacional tenha um
papel mais efetivo na fiscalização dos acordos e na aprovação
de projetos que contribuam para este controle social, como a regulamentação
da auditoria e a do plebisicito, que está sendo proposta pela
OAB.
Em
que termos ou condições a dívida deve ser renegociada?
Eu sou favorável a uma auditoria que explique como ela explodiu,
como ela é paga, qual é sua parte legítima e qual
não é. Defendo auditoria com a suspensão do seu
pagamento. A partir daí, o que for legítimo se paga. Por
exemplo, se devemos para Venezuela porque compramos petróleo,
tem que pagar, é legítimo. Agora, se há um empréstimo
internacional no qual o banqueiro subiu a taxa de juro flutuante de
3 para 18% ao ano, deve ser questionado. Essas questões devem
ser debatidas. E disso podem aparecer propostas intermediárias,
negociadas. Mas o governo e a mídia precisam enfrentar o problema
e não tratá-lo como tabu. Não podemos tratar assim:
“tem uma dívida e tem que ser paga e o resto que espere”!
A saúde, a educação da população,
as estradas esburacadas, a falta de energia. Temos que mudar a lógica
deste raciocínio.
Quais são
as conseqüências que a dívida trouxe para o país?
Em primeiro lugar, o mecanismo da dívida impõe a política
econômica de controle da inflação, aumento de juros,
do superávit primário e de impedir o controle dos fluxos
de capitais. Em segundo lugar, estabeleceu-se a lógica de comprar
credibilidade e confiabilidade internacional com a exportação
de capitais. Neste ano, o país já arrecadou 70 bilhões
de reais, 13 bilhões a mais do que o previsto no acordo com o
Fundo Monetário Internacional, que sabe muito bem que a nossa
dívida é impagável. Ainda assim ele impõe
as condições e até legislação, como
foi o caso da Lei de Responsabilidade Fiscal, que drena recursos dos
estados e municípios para a União produzir o superávit.
Como é possível romper com este modelo sem criar
um clima de desconfiança internacional?
É preciso compreender que não haverá enfrentamento
real deste problema sem algum conflito. Haverá chantagem do capital
financeiro internacional e nacional, pressão da cultura criada
pelo capital especulativo. O sistema está montado pra isso.
Mas veja o exemplo da Argentina. Ela está em moratória
há dois anos e não acabou. Hoje ela negocia seus títulos
por 25% do valor inicial. O dinheiro que deixou de ser drenado para
a dívida está sendo investido internamente. Resultado:
eles estão crescendo 10%, 11% ao ano. A Malásia estabeleceu
o controle do fluxo de capitais e está crescendo. A Rússia
decretou moratória em 1997 e está crescendo. Então,
essa história de que o país acaba quando toma medidas
contra a dívida é chantagem.
Mas com
negociar a redução de juros no plano internacional?
A economia não é algo técnico, como querem nos
fazer crer os economistas neoliberais, mas é política.
Volto ao exemplo Argentino. Os credores chiaram quando o país
fez a proposta de pagar 25% do valor inicial. Mas isso significa 2,5%
de juros ao mês. É muito! O investidor internacional vem
para o terceiro mundo especular e ganhar cerca de 12% ao ano. Então
é um jogo de pressão política. E o que está
em jogo é a fome dos países, a exclusão social,
o desenvolvimento das nações, não dá só
pra meia dúzia de economistas tratarem a questão como
política monetária.
E porque
o governo Lula continua a política econômica do governo
anterior?
Por que fez a escolha errada, a mais cômoda, pelo não enfrentamento
real do problema. A linha do governo foi comprar credibilidade, sendo
mais “responsável” que o Fernando Henrique. Não
houve turbulência, mas também não houve crescimento.
Houve foi frustração. Neste modelo é proibido crescer,
já que crescer mais de 3% ao ano gera inflação.
E não são necessárias grandes rupturas para começar
a avançar. O governo podia baixar os juros, diminuir gradualmente
as metas de superávit para negociar o pagamento da dívida,
ganhar fôlego. Quando o governo começou, sua aprovação
beirava aos 90%, estava forte. Agora não, está refém
do capital financeiro.
A saída
do Carlos Lessa do BNDES fortalece a mudança ou o conservadorismo
dentro do governo?
A saída do Lessa é um retrocesso. É uma vitória
do capital financeiro e dos exportadores que não querem agregar
valor ao produto, é uma visão imediatista. O Lessa é
um planejador, defensor de um projeto nacional de desenvolvimento soberano.
É a contraposição de dois modelos. Venceu mais
uma vez o lado conservador.
As mudanças só virão se houver pressão organizada
de baixo para cima da sociedade contra o projeto conservador e neoliberal
que continua sendo implementado.
E também se houver uma turbulência interna dos seus quadros
políticos, de sua esquerda interna, para empurrar o governo para
a mudança. Mas vai depender da correlação de forças.
A saída
de assessores mais próximos do presidente cria esta turbulência
ou apenas reforça o lado mais conservador?
O governo pode se tornar mais conservador, o que não quer dizer
que está mais forte. Ele fica mais fraco, pois existe uma descrença
muito grande entre os formadores de opinião, a massa crítica
do PT. Vai ter um enfrentamento mais adiante. Não dá pra
continuar assim.