CULTURA
Filme analisa sociedade brasileira pela lente da justiça

Está em cartaz o documentário Justiça, de Maria Augusta Ramos. O filme mostra o cotidiano de um Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e os seus personagens: advogados, defensores públicos, juízes, promotores e réus. Para retratar o clima deste teatro social, a documentarista posicionou sua câmera de forma que os acontecimentos fossem simplesmente registrados da forma que ocorreram, com quase nenhuma edição. Não há depoimentos nem entrevistas. O cenário e as personagens da vida real levam o espectador a refletir sobre a situação do judiciário em nosso país, mas ainda mais sobre a condição humana. Leia entrevista que a Voz do Advogado fez com Maria Augusta Ramos:

Como surgiu a idéia de fazer um documentário sobre a justiça?

Eu queria fazer um documentário que retratasse a sociedade brasileira, abordando a violência urbana e as tensões sociais. Fui pesquisar no Fórum e me encantei com o teatro da justiça. Percebi que através do universo da justiça era possível fazer uma leitura da nossa sociedade.

Como você descreveria este “teatro da justiça”?

Neste teatro existem rituais e códigos. Como o juiz interroga o réu e passa para o escrivão, como um promotor atua, etc. Nossa justiça é muito diferente daquilo que o público vê nos filmes americanos. Eu queria mostrar esta diferença.

O que é mais cômico e mais trágico neste teatro?

Olha, tudo que é engraçado na verdade esconde uma tragédia. A mentira dos acusados para se safarem é cômica. A corrupção da polícia e a sensação de impotência são trágicas. Na verdade todos os personagens deste filme são vítimas, prisioneiros do sistema. Quis fugir daquele senso comum de que o culpado pelos problemas do judiciário é o juiz. Ele não faz a lei, só a aplica.

Você acha que a justiça funciona no Brasil?

Esta é uma questão complexa. Para as pessoas do filme, que são pobres, a justiça funciona. O Judiciário é muito competente, pois as prisões estão cheias. O que precisa se debater é como as pessoas vão parar ali. Como podemos cobrar comportamento adequado de um favelado dos morros cariocas que não teve nenhuma perspectiva durante sua vida? O que esperar de um sistema carcerário que compartilha na mesma cela aquele que roubou um celular com um latrocida?

O filme choca justamente por mostrar as tragédias pessoais e a do próprio sistema através da simples observação. Porque as pessoas não percebem isso no dia-a-dia?

Existem vários fatores: o medo da classe média, que tenta sobreviver e vive com medo. Sabe que a violência é fruto da exclusão mas acaba optando pelo discurso maniqueísta, reforçado pela mídia, que ora demoniza o criminoso, ora demoniza a própria justiça. Isto não ajuda ninguém a refletir.


Serviço: Justiça
Duração: 100 minutos
Salas e Horários: Espaço Unibanco 3 (Rua Augusta, 1475). 15, 17h10 e 19h20, exceto segunda; 21h30, exceto segunda e terça; 20h, somente segunda.
Saiba mais sobre o filme no sítio www.justicaofilme.com

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